A LASCA
Crônica curta: a lembrança de um episódio de infância com minha irmã Mônica é a inspiração para este texto.
CRÔNICAS


Ela coçava a porta, a porta que nada sentia, nem coceira, nem cócegas, sequer ouvia os desaforos da avó, que murmurava.
A avó causava nela o impulso de coçar. Não podia responder, fazer malcriação e arriscar um bofetão era um preço que não estaria disposta a pagar. Aquela porta áspera testemunhava seu sufoco.
Buscar imperfeições com os dedos, deslizar pelas ranhuras que nenhuma lixa havia tocado, era um deleite, um verdadeiro ato de protesto de quem sequer poderia lançar um rabo de olho.
Ficar ali, roçando as unhas na porta, disfarçando pra deixar o tempo correr e a avó esquecer a raiva, era sua única saída.
A avó continuava a esbravejar. Não sabia lidar com teimosia, precisava impor limites e não se furtaria a despejar cada palavra engasgada de uma vida inteira de labuta.
A menina soltou um grito. Não escutava mais os resmungos. Lançou sua ira contra a porta, que, de tanta coceira gratuita, devolveu-lhe uma lasca sob a unha.
A avó, que se remoía de culpa, jamais contaria com a hipótese de que tamanha falação resultaria em ocorrência no pronto-socorro.
A neta, que morria de medo de picada, foi premiada com uma farpa na unha e uma agulhada no bumbum.
Eu tenho outro texto com a mesma avó, confere aqui se quiser: Eu fiz café, você quer?