A VERDADE, NADA MAIS QUE A VERDADE

Conto curto: em nossas diferenças, somos tão iguais. Às vezes reconhecemos, mas quase nunca. Estava pensando sobre isso há pouco, daí Simone pulou na página do Docs.

LITERATURACONTOS

Maruza Assis

3/1/20254 min read

Apertou o botão do elevador com força. Os dedos suados repetiam o gesto incessante.

— Está descendo, moça!

Simone virou o pescoço para trás, mordendo o lábio inferior com os dentes cerrados, disfarçados pela boca fechada. Acenou para o senhor que segurava um envelope branco e verde. Ele e uma senhora, que também carregava um invólucro semelhante, desceram no sétimo andar. Simone respirou fundo e pressionou novamente o botão já acionado para o décimo primeiro.

Ajeitou o blazer bege que cobria a camisa branca, conferiu o botão fechado acima do peito e atravessou a porta da recepção.

A mulher no balcão apontou para a longarina ocupada por quatro outras candidatas e avisou que a ordem de atendimento seguiria a chegada. Simone desviou o olhar, evitando encarar as concorrentes, e encostou-se entre o bebedouro e o último banco vazio da cadeira alongada.

A segunda porta no corredor abriu-se. Uma moça esguia, de cabelos pretos e lisos até os ombros, saiu cabisbaixa da sala.

— Boa sorte. — Murmurou às colegas sentadas, sem encará-las, e atravessou a recepção.

Todas se entreolharam. Simone mexeu na bolsa, tateou uma barra de cereal e ajeitou os óculos.

Uma a uma, as candidatas — tão semelhantes que mais pareciam primas ou irmãs — deixavam a sala de entrevista. Com exceção da penúltima, os semblantes também se igualavam em desesperança.

Na sua vez, Simone entrou na sala. O homem, branco, gordo, aparentando sessenta anos e vestido com um jaleco, olhou por cima dos óculos sem se levantar. Esticou o braço para cumprimentá-la, e ela retribuiu o aperto de mão com os dedos úmidos, frouxos.

Sem demora, estendeu-lhe um envelope.

Ele retirou a folha de dentro, percorreu o A4 com os olhos e, com uma Bic azul, circulou partes do texto.

— Sinceramente, Dona Simone… Digo, senhorita. Seu currículo é o mais adequado para a vaga. — Ele ajeitou-se na cadeira, pigarreou. — Parece que a senhora adivinhou como é a rotina no consultório. Estou impressionado com o que está escrito aqui.

Sentada à sua frente, Simone segurava a bolsa social bege e preta no colo. Unhas raspavam umas nas outras, olhar fixo no homem, o rosto marcado por um leve desdém.

— Mas, como o papel aceita tudo, e aqui lidamos com pessoas que não aceitam nada… Me fale: quem é Simone Rodrigues dos Santos?

"Assim como você e todo mundo que conheço, sou hipócrita, arrogante, egoísta. Só aceito a verdade que é a minha, não tenho um pingo de paciência para o que os outros falam e só converso com quem concorda comigo. Procrastino pra caralho, deixo tudo para a última hora. Não reparou que cheguei atrasada, não, seu velho escroto? Acho essa vaga uma bosta, o salário é uma miséria. Ninguém merece trabalhar em feriado e fim de semana, mas preciso pagar o aluguel, então vou ter que aceitar. Não te conheço, mas já estou com nojo de olhar para sua cara. Receber ordens suas, então? Puta que o pariu, tô fodida! Mas vou ter que engolir o ranço. Pagando meu aluguel e minha comida, o resto eu vejo depois. Vou aproveitar a internet daqui para mandar mais currículos, porque lá em casa é só no 4G. Ah, e por falar em currículo: inventei 80% do que está escrito aí, com a ajuda do ChatGPT e da descrição da vaga que vocês postaram no site."

Depois de encará-lo e desviar o olhar pelo ambiente por alguns segundos, abriu a boca:

— Ah… Imagino que o senhor já tenha escutado muita coisa e vivido bastante. Então sabe como é difícil falar de nós mesmos, né? Mas o que posso dizer é que, apesar da minha pouca idade, me considero uma mulher de fibra. Tenho encarado a vida de frente. Falar de mim é falar dos meus sonhos, e um deles é poder ajudar esse público tão especial, que são os pacientes oncológicos. Só de ter a chance de trabalhar como assistente administrativa, já me sinto privilegiada. Isso me estimula a iniciar meus estudos na área da saúde.

O médico levantou-se da cadeira, circulou a mesa, passou por trás da cadeira dela, voltou ao lugar. Mirou o currículo.

— Trinta e um... E ainda pensa em começar Medicina?

"Não penso em começar nada, seu porco velho. Há anos desisti de Letras e Turismo no primeiro semestre, isso quando meu pai pagava. Imagina agora? Com essa mixaria que quer me pagar, se sobrar pro barzinho de vez em quando, já fico feliz."

— Radiologia, na verdade. A ideia do diagnóstico, de ajudar na descoberta oncológica, me fascina.

— Passe na recepção e converse com a Norma. Ela vai te orientar. Seja bem-vinda. Segunda-feira você começa. Vai trabalhar no sétimo.

Levantou-se e estendeu a mão para Simone.

Com o corpo arqueado, ela aceitou o cumprimento e saiu.

Na recepção, Norma entregou-lhe uma folha com a lista de documentos.

— Eu não sei o que você disse para o Dr. Salomão, mas está de parabéns, viu, Simone!

— Nada demais… Obrigada.

— Você deve ser a trigésima só essa semana. Eu não aguentava mais escolher currículo e fazer o administrativo além da recepção.

Simone sorriu de canto.

— Espero poder ajudar. Só falei a verdade.