COMERCIAL DE MARGARINA

Conto curto, inspirado num almoço de domingo em minha casa na Vila Prudente: o desabafo de um de um casal de amigas em junho de 2024

CONTOSDRAMATURGIAS

Maruza Assis

6/16/20243 min read

GIU — Para, Mari. Até parece que, aos treze anos, você morria de amores por dona Sebastiana. (Sentada à mesa do café da manhã, Giu pega a faca e corta o pão ao meio).

MARI — Dona Tiana era bem difícil, você sabe muito bem disso. Já te contei milhares de histórias sobre a minha mãe. (Mari leva o leite vegetal aquecido à mesa e senta-se de frente para Giu).

GIU — Sim, conheço cada um dos arranca-rabos entre vocês duas, mas quem garante que, aos olhos do Rafinha, você seja uma pessoa fácil? (Giu passa a margarina vegetariana no pão integral com suavidade).

MARI — O quê? Você está me acusando de ser uma mãe carrasca? Quem vê pensa que sou uma bruxa. (Mari enfia a faca com força no creme vegetal, tira a margarina para seu pão. Giu arregala os olhos para o arrombo no pote).

GIU — Como sofre, meu Deus! Eu disse: “aos olhos do Rafinha”. Entende o que isso quer dizer? Assim como você enxergava um temperamento difícil em sua mãe, talvez ele também a veja assim… Uma pessoa difícil de lidar! (Mari baixa o olhar em silêncio. Giu coloca sua mão sobre a de Mari, que a retira e a leva ao rosto).

MARI — O que você quer, Giu? Que eu deixe um adolescente fazer tudo o que lhe der na telha? Que eu não exija nem o básico do Rafael? …Se visse o olhar que ele me lançou só porque exigi que lavasse as próprias cuecas… Se visse o que eu vi no olho dele, você entenderia que não há exagero algum na minha fala! (Giu, com o cotovelo apoiado na mesa, segura o queixo com o dedão e o indicador, levantando a sobrancelha. Os outros dedos da mão esquerda cobrem seus lábios, empurrando sua cabeça em sinal de negação).

MARI — E como eu faço para mudar esse “olhar do Rafa”, então?

GIU — Não faça! (Giu leva a caneca do descafeinado com leite vegetal à boca).

MARI — Hã?! (Mari arqueia a sobrancelha, olha para Giu, que mantém o olhar sobre a refeição e puxa um prato com mamão cortado em sua direção. Mari levanta da mesa, abre a geladeira, pega o iogurte desnatado e lança um olhar firme para Giu, que a encara).

GIU — Isso mesmo. Permita que seu filho sinta o que achar que deve sentir por você, até mesmo raiva. (Giu mantém o olhar firme em sua direção).

MARI — Você deve estar ficando louca, só pode! (Mari puxa o prato de Giu e enche a boca com o mamão).

GIU — Quando você passou a admirar e ter respeito por dona Tiana?

MARI — Sei lá! Mas que pergunta?! E o que isso tem a ver com o Rafa mal falar comigo agora?

GIU — Quando pagou seu primeiro aluguel… Lavou suas roupas… Fez seu arroz com frango… Teve boletos para pagar, arrumação de casa… Quando teve de dar conta de tudo ao mesmo tempo e sozinha…

MARI — Verdade. Falamos sobre isso há alguns meses… Nessa época, minha mãe começou a fazer mais sentido… (Mari prepara uma tigela de iogurte com cereais e entrega para Giu, que acena com a cabeça, pisca suavemente e pega a tigela).

GIU — Nem tudo era implicância ou rabugice. Ela estava te preparando para o mundo.

MARI — Quando o Rafinha nasceu, dona Sebastiana fez todo o sentido como mãe. Ela sempre teve razão… Em cada um de seus conselhos, me ensinou tudo o que sabia… Eu, jovenzinha “dona do mundo”, mal sabia que ela estava certa o tempo todo! (Giu levanta da mesa e despeja o restante do iogurte na pia).

GIU — Não exagera também, Mariana! Tem umas tosquices da sua mãe que, puta que pariu! Ela não é nenhuma “flor”. Quando você se separou e nos assumimos, por exemplo… (Giu retira a mesa, leva a louça para a pia e começa a lavar. Mari continua sentada, juntando as migalhas sobre a toalha de mesa).

MARI — Tá, tá bom, tá bom… Mas até agora não tô entendendo aonde você pretende chegar com essa conversa. Não sei o que isso tudo tem a ver com a raiva e a vergonha que o Rafael vem demonstrando sentir de mim. Entendo menos ainda como faço para melhorar o relacionamento com meu filho, Giuliana. (Mari levanta, devolve a margarina, o iogurte, as frutas e o leite à geladeira. Sacode a toalha no canto ao lado da pia e aproxima-se de Giu, que fala em tom suave).

GIU — Como eu disse, Mari: não faça nada. Nada além de ser mãe. De impor limites, de exigir respeito, de amá-lo como sempre. Você é a melhor mãe que pode ser, sou testemunha disso. Respeite o momento dele. Deixe-o viver essa fase.

MARI — Daqui a algum tempo, ele terá os próprios boletos para pagar, né? (Giu enxuga as mãos no pano de prato, puxa Mari para seus braços e a envolve. Cobre os braços dela com os seus e a beija na testa).

GIU — Entendeu?