Intolerância
Conto curto, exercício realizado na oficina de contos do Professor de escrita criativa Matheus Arcaro, em 2025.


A colher raspando o fundo do alumínio atiça o grito da avó na sala.
— Larga isso aí, Rafaela. Põe de molho que mais tarde eu ario.
— Tá tudo bem, dona Constância. Não vou arranhar sua panela, não! — retruca a neta, encostada na pia.
— A Rafa não chama a senhora de vó? — O rapaz comprido, sentado à frente da idosa, estatela os olhos.
— Essa sua namorada sempre foi abusadinha. Tá lá na cozinha só pra te cozinhar o miolo. — Soltando um riso de canto.
— Eu só não lavo porque fechei hoje — ele ergue o braço, encapado com filme plástico. — A mousse está uma delícia! Queria que a minha avó tivesse uma mão dessas!
Ela leva o prato do rapaz até a tigela de sobremesa.
— Se quiser, dou o telefone da panetteria onde compro!
Puxando o prato da mão da idosa, ele derruba o olhar e renega com o corpo.
— Não posso exagerar... lactose, né?
— E a sua avó, além de não saber cozinhar, vai me dizer que é daquelas velhas que adoram pegar ônibus de manhã?
— Nossa, a senhora conhece a minha avó, dona Francisca?
— Claro que não! A Rafa não contou que mudei semana passada?
— Verdade! Mas como a senhora sabe da minha avó?
— Sua cara fala.
— Não peguei!
— Aposto que ela também não tem qualidades de tricotar um caminho feito esse. — A velha alisa a toalha branca de mesa que serve de suporte à tigela.
— Tadinha, quem dera! Mas adora bater perna. Agora então, que conseguiu um bilhete especial, ninguém acha mais ela em casa!
— Dona Constância, Juliano, tá tudo bem aí? Algum voluntário pra trazer o resto da louça? — Rompe a voz vinda da cozinha.
— Tô aqui, conhecendo minha amiga Chica! — Constância aumenta o tom à neta. Larga o olhar fixo no rapaz e estica o braço até o celular sobre a mesa.
Juliano massageia com o indicador e o polegar nos pontos da toalha branca à mesa. Escapando o olho do rosto da idosa, enfia a etiqueta chinesa do crochê embaixo do tecido. Forçando os pulmões ele aperta os dentes e ergue o corpo.
— Já vou aí, meu amor. Onde é que fica o banheiro, dona Constância?
— Puta que o pariu! — Grita a velha, ampliando a imagem no aplicativo de consultas. De cara na tela, aponta à esquerda com a mão — No final do corredor!
— Tá tudo bem, dona Cons… — Arrisca o jovem.
— Um saco mesmo, viu?! Como eles mexem na agenda da gente assim dessa maneira? Minha consulta era de tarde, passaram pra sete da manhã! E se a gente tem compromisso? Além da perturbação de cruzar quem sai pra trabalhar essas horas!
— Nesse caso a senhora não tem muita escolha…
— Até tenho, viu? Podia ir dirigindo, exame de rotina, consultório quase ali. — Ela cruza os braços e leva a mão ao queixo — Mas acho que vou usar o bilhete de graça nessa vez!
— Desculpa, tô apertado, preciso... — Levando a mão à barriga, ele aponta o corredor.
— Intolerância, né? Uma merda mesmo!