O SANGUE DE JESUS TEM PODER!

Conto curto, desafio de escrita: Esse título era uma frase que não saía da boca da minha avó quando eu era criança. Já adulta, lembrei-me do relato de um vizinho policial, e ambos me conduziram a esta ficção.

CONTOS

Maruza Assis

6/19/20213 min read

Conversas sobre a gostosa recém-contratada da sessão...

Artifícios para descolar um atestado que prolongue o final de semana. E mesmo a última rodada do Campeonato Paulista, definitivamente, não estavam na lista de interesses de José Wilson.

Ele acelera o passo e acena para os colegas de fábrica, que o seguem em comboio, entretidos em um dos assuntos da vez.

Até a estação de Presidente Altino, a maratona diária para chegar a tempo do trem das 17h20 na Luz tem sido a única prioridade de Zêwill nos últimos sete anos. “Se chegar antes do jornal acabar, consigo pegar Julinha acordada”, planeja.

“Rogerinho não tinha o direito de cometer o sacrilégio de chutar a bola na trave, agora é rezar para a derrota do Santos hoje à noite!”, dizia a voz saída do fone.

Ele respira fundo e arranca o aparelho dos ouvidos.

Atravessa a catraca: empurra, é empurrado.

Segue a ritualística em oração quase audível:

Vagão do meio... apoio de mãos nas portas... uma estação... mira nas escadas... desce... segue fila... sobe... atravessa túnel... troca de trem... cotoveladas... esquivas... insultos... bolsadas... mais um trem... um outro mais... “já já” a van.

Catraca do último trem, mão no bolso de trás, um tapa na bunda, outro tapa e nada. Avança com a massa, vasculha a mochila, revira bolsos, bolsinhos... nada. Nada da carteira!

Mão na testa, suor enxugado no jeans. Vai até o segurança:

“O dinheiro é melhor você esquecer. Vai ter muita sorte se conseguir recuperar os documentos.”

Anúncio no microfone:

“Atenção! Quem encontrou a carteira com os documentos do senhor José Wilson de Jesus Filho, favor entregar na SSO.”

Ligação a cobrar para Antônia, caixa postal. Sair de Guaianases antes das 20h não é mais uma meta atingível para o dia de hoje. “Que Julinha e Antônia estejam jantando em paz!”

Mão na testa. O dinheiro do aluguel… “Mas que raios, Dona Zulmira tem que receber em papel!” Zêwill calcula nos dedos a hora extra para compensar um empréstimo na firma.

O descuido da carteira no bolso de trás vai custar muito caro!

Refez o percurso mentalmente da ZO à ZL. Lembrou que tinha pago a passagem ainda em Osasco com o bilhete que pegou da carteira. Pensou nos documentos, cartão de crédito, bilhete carregado com passagem para o mês inteiro...

“Atenção! Quem encontrou a carteira com os documentos do senhor José Wilson de Jesus Filho, favor entregar na SSO.”

Escutou mais uma, duas, três vezes ao pé da cabine. Agradeceu ao segurança, saiu da estação.

Zêwill chega próximo ao motorista da van, abre a boca... uma senhora atravessa em sua frente:

“Essa perua passa no Lageado?”

O motorista acena que sim.

De cabeça baixa, ele segue a pé. Acelera o passo pelas ruas estreitas do extremo leste de São Paulo.

“Negociar um empréstimo na firma; Antônia preocupada; ir ao Poupatempo; Julinha dormindo; ligação para dois bancos; SPTrans; boletim de ocorrência. Zero notícia do Timão no ouvido, a bateria foi junto com a sua energia…”

Uma fagulha de vontade: o semblante de Antônia em sua mente. Acelerou o passo, arriscou pequenos trotes.

Raspão no braço. Um jovem o ultrapassou, corria bem, sumiu nos becos.

Sem atino, Zêwill continuou acelerando. Tapão nas costas:

“Mão na cabeça, neguinho, não se mexe!”, disse o policial, derrubando-o já com o cano em sua cabeça.

“Pelo amor de Deus, eu estou voltando do trabalho!”

“Cala a boca, filho da puta! Eu não perguntei nada! Ô, Oliveira, esse favelado aqui nem documento tem. Já revistei.”

“Ele tava correndo junto com o outro que fugiu, né?”, disse o segundo policial, encostando na viatura.

“Traz este encardido aqui pro carro, vamos dar um jeito nisso.”

“Eu perdi meus documentos, chefe! Estava indo para casa, pelo amor de Deus, eu sou pai de família!”

Oliveira dá um soco na boca de José Wilson.

“Claro que é! Seu colega que fugiu também é! Entra logo nessa porra antes que eu dê um tiro em você aqui mesmo!”

Os dois empurram José Wilson no porta-malas da viatura. Somem na escuridão da estreita rua em um bairro do extremo leste.

Antônia, há anos, procura pelo marido. Perdida entre grupos, reuniões, igrejas, ONGs, associações.

Na fé, algum conforto:

“O sangue de Jesus tem poder! José Wilson de Jesus Filho haverá de aparecer.”