RE-NATINHA

Poema que ficou de fora da peça: Eu, Você e Os Afetos Em Cada Um Dos Nós. Este era um texto encomendado para uma das esquetes do projeto

POESIADRAMATURGIAS

Maruza Assis

2/18/20232 min read

1
Eu tinha… eu tinha… tinha eu…
Eu tive, disse-me ele…
Ele flutua… eu re-pouso…
Pousada na imagem impressa da dança,
re-nasço… nascida em mim
depois do fim.

De volta ao começo…
Re-flito… aflita, agitada.
Um dia só, não me esqueço.
Eu cresço, cresço, cresço,
re-criada, tecida, talhada.
Tantos meses corridos…
Corroem-me as entranhas.

Re-jeito a obrigação estranha,
ajeito a espinha, alongo,
num longo instante, enlutada.
Re-ssinto-me: lenta, cansada.
Me movo de novo — no ritmo bailarino,
meu solo pequenino.

Re-movo, movida ao som da batida constante.
Re-nuncio, anunciando cada dúvida em meu semblante.
Re-escrevo o futuro, certamente mais incerto
que um passado acertado.
Re-jeito, desajeitada, sujeita em minha estrada:
ora seca, ora encharcada.

Re-clamo, clamo, clamo, clamo…

2
Recuso a acusação injustificada,
rezo, rogo, recito sem te citar.
Reconduzo meu caminho,
recrio meu destino.

Repenso, penso, penso…
Refaço, faço, faço, faço diariamente…
Reforço, forçadamente, mentindo para a minha mente.
Renego a dor que era todo amor!

Renatinha, tinha, tinha, tinha…
Renascida: Re-nata!

3
Relevo numa toada, um só tom em cada tombo.
Recrio, em toda esquina, meu semblante de menina.
Recebo a pancada!
Renego a minha dor, que era todo amor.

Reajo a cada arranque deste motor encarnado.
Reitero, a cada manhã, meu trajeto desajeitado.
Refaço minha cama… regresso ao lar materno.
Remo, moída, re-moída, lambendo cada ferida.

Recordo, acordada.
Removo, me movo de novo, de novo.
Repenso a cada manhã.
Reparo, sem parar, na rua ou no palco.
Retraço num traçado ilógico…
Reabro a porta, ressinto sem mentir.
Repito o gesto, o trajeto.

4
Reforço, forçadamente, mentindo para a minha mente.
Renuncio, anunciando toda dúvida em meu semblante…

Relato, enlatada.
Reino, leonina desde menina!
Rebato e apanho.
Reorganizo o caos do meu juízo.
Refino, indelicada, na força de minha patada!
Regozijo no gesto lento, sem lamento…

Retraio, atraio o que me sopra vida!
Relaxo no pouso frouxo…
Retribuo à minha tribo!

Retraio, atraio e expando-me…
Revezo, enviesada na leveza e no peso.
Reviro, me viro.

Relanço a dançarina;
Relembro minha menina;
Reabro a retina;
Repenso minha vagina…
Revirginada, sem vigor…
Revisitada?

Retoco o esboço da boca e do cabelo,
rebelo a beleza desnuda…
Repenso o impensável.

Renascida,
Renata.

Se quiser saber mais sobre o espetáculo, acesse: Eu, você e os afetos em cada um dos nós