UM ENCONTRO COM DEUS

Conto curto: uma colega de trabalho pediu para eu escrever sobre este título. Ela era recém-convertida, já a protagonista da ficção tem uma vida inteira de dedicação à igreja.

CONTOS

Maruza Assis

11/11/20233 min read

Conceição folheou a revista da Avon e correu até a vizinha.
Três palmas seguidas:
— Reginaaa!

A mulher, descabelada, atendeu com os trocados em punho, entregou o dinheiro amassado na mão da conhecida e virou-se de costas, voltando ao barraco de madeira.

A senhora juntou as moedas com as notas dentro da revista. Em casa, pediu ao neto de doze anos para conferir o dinheiro.

O menino separou os montinhos, olhando cada um dos pedidos anotados na revista:
— Falta cento e dez, vó!

Ela apertou o rosto e circulou pela pequena cozinha. Quem a havia enganado dessa vez?

Da caminhada repetitiva, chegou ao quarto. Na gaveta da penteadeira, embaixo da Bíblia, pegou algumas notas.

Suplicou ao neto:
— Coloca esse também, vê se ainda falta.

O menino recontou os montinhos e conferiu com cada página. Separado o dinheiro dos pedidos, devolveu uma nota de cinco e mais algumas moedas para a avó.

Ela levantou as mãos aos céus e apertou o menino, colocando em suas mãos o “troco”.
— Vá comprar um chup-chup!
— É muito, vó! As moedas só já tá bom!

O menino correu até o bar da esquina. A avó correu até o quarto.

Ele esticou os joelhos para falar com a dona da venda.
Ela dobrou os joelhos para falar com o dono da vida.

Ele pediu o doce gelado e a ajuda da conhecida.
Ela pediu todas as desculpas devidas.

O dízimo ficaria congelado mais uma vez!

A vergonha com o pastor a fazia orar distante dos "aleluias" e "glórias ao Senhor" coletivos.

A filha, que faxina de segunda a sexta e cuida de idosos nos finais de semana, conta com a ajuda das vendas dos cosméticos.

Um pré-adolescente sem pensão pesa. A ponto de cada revenda ser bem-vinda.

"Não... Não tem nenhuma necessidade de a mãe do menor saber dos calotes. A pobre já labuta tanto, e um desgosto desse não tem precisão", pensa a idosa.

O menino arrasta a amiga do bar pela mão. A mulher, sem jeito, pede licença à velha desconfiada, que ameaça ralhar com o neto.
— A senhora vai desculpando, mas não é a primeira vez que seu neto me conta do calote...

A velha abaixa a cabeça, não sem antes ameaçá-lo com o olhar.
— À noite eu vou passar aqui. Sei que sua filha já vai ter chegado!
— Você me paga, menino... — Ela levanta o braço no ar; ele não abaixa o olhar.

— Não é nada disso! Eu não vou me intrometer na vida de vocês, só quero ajudar... Não vou falar nada pra sua filha, não... Fica tranquila, dona Conceição!

A velha franze a testa e olha fixamente para a visita, depois para o menino.
— Calma, vó! Ela vai te levar para um lugar. Vai ser bom, a senhora vai ver!

A velha olha para a porta, caminha pela cozinha, faz que vai pegar o bule...

— Bom, é isso, dona Ceiça. Eu sei que sua filha já está para chegar, então vou indo. Daqui a duas horas passo por aqui e... Se quiser manter segredo, por mim, pode falar que mais tarde vou para a igreja com a senhora...
— Mas eu num tô indo...
— Eu sei, eu sei... A língua do povo é feroz. Eu sei que a senhora não está indo para a igreja, e o meu templo é outro. A senhora vai gostar, confia!
— É, vó, confia...

A visitante virou as costas e saiu sem se despedir.

Dois meses seguidos, a mãe do menino deu-se conta de que sua mãe não falava mais sobre os cultos, tampouco sobre os sermões do pastor.
— Mãe, aonde a senhora tem ido com aquela sujeita? Não vai me dizer que a dona do boteco se converteu... E, além disso, o culto agora é toda noite também?

Dona Ceiça abre um sorriso largo, chama o neto. Ele volta com um caderno e um lápis na mão. O menino, saltitante, conduz a avó até a mesa.

A filha cerra os olhos e arqueia os ombros. Os três sentam-se.

O neto abre uma folha em branco e dá o lápis na mão da avó. Ela escreve em garatujas:
"Eu tive um encontro com Deus."