UM SÁBADO QUALQUER

Dramaturgia curta, produzida durante o laboratório: Compondo sem filtro - Manás Lab de Dramaturgia Julho de 2024 - SP Escola de Teatro

DRAMATURGIAS

Maruza Assis

7/19/20244 min read

PERSONAGENS: Luciana 40 e Luiza 35.


CENÁRIO: O interior de um ônibus e a sala de um apartamento classe média na capital de São Paulo, tempo atual.

A encenação é dividida em três partes, narrada por Luciana, intercalando momentos de discussão ao telefone com sua irmã, Luiza anuncia os títulos/transições de cena. Nos momentos de narração, a personagem falante se posiciona na boca de cena, durante o diálogo elas se movimentam em seus ambientes. Luciana está ilhada em uma enchente sentada num banco de ônibus, Luiza está em seu próprio apartamento. O diálogo é carregado por sentimentos como cuidado, preocupação, impaciência, ansiedade e ressentimento. As marcações em caixa alta são faladas com ênfase.


LUIZA: PARTE UM - NÃO SOU CONDUZIDO, CONDUZO!

(narração)

LUCIANA: Capital de São Paulo-Brasil, 23 de dezembro de 2023, saída de ônibus em algum terminal de metrô.

As crianças tagarelam, brincam ao smartphone; respingos de chuva escorrem pela vidraça do coletivo. Entardecer tranquilo no pedaço de trânsito da capital… Em poucos minutos, eu já estaria em casa.

Celular no restinho de bateria, um feed viciado e desimportante rola entre meus dedos, gastando um tempo que não é meu. Tráfego de sábado às quinze e trinta era pra ser rápido, foi se tornando idêntico a uma segunda chuvosa às dezessete e trinta de trânsito parado, dez minutos atravessando a hora…

É antevéspera do Natal, pensei: “natural o tempo aumentar no caminho”. Entretanto, não, não era a expectativa do evento natalino que havia feito tudo parar.

Alheia ao anseio da ceia e a tradição do alucinado consumo ocidental… A ÁGUA DESCE… A ÁGUA SOBE…

É água! Muita água! Nada parecida com chuva ou vinda do céu, água brotando da terra. Lama exalando um ardor nas narinas. Barro apodrecido, envenenado pelos bueiros, jorrado na avenida.

Um, dois, três, cinco, dez, vinte, cinquenta ou mais carros parados. O condutor do coletivo não teve outra escolha, que não fosse a mesma dos pequenos automóveis imóveis e seus conduzidos… Esperar!

LUIZA: PARTE DOIS - BOTE SALVA VIDAS


LUCIANA: A água tá brotando do chão, cê num tá entendeno…(no banco de ônibus)

LUIZA: Achei que estivesse dentro do ônibus, é água do céu ou é água da terra? Me explica direito! Não! Deixa, deixa, manda a localização agora! Tô indo aí te buscar! (pega as chaves e anda de um lado para o outro)

LUCIANA: Eu vou repetir…(respira fundo), aqui choveu alguns minutos e alagou tudooo. Deve ter um zilhão de carros parados nesse trecho, atravessaram a ciclovia, já invadiram a contramão… ninguém sai do lugar! Consegui desenhar?

LUIZA: Está me chamando de burra, Luciana? Eu tô tentando te ajudar, cacete! Só preciso da localização… vou aí te pegar!

LUCIANA: Adianta de quê Luiza? Tá pensando que é ficção, irmãzinha? Vai chegar vestida de papai noel num bote salva vidas? (ironiza) SEU CARRO DO ANO NÃO SERVE PRA NAAADA NESSA INUNDAÇÃO! (olha pela janela assustada) … Meu Deus do céu … a enxurrada tá levando a moto do entregador, alguém faz alguma coisa pelo amor de Deus, gente! (bate no vidro e grita para a janela)


(narração)

LUCIANA: CIDADÃOS! …PUNIDOS PELAS CHUVAS OU AGRACIADOS PELAS ETERNAS OBRAS DE EXPANSÃO URBANA? …SERÁ CASTIGO DE DEUS OU INDULGÊNCIA DO INIMIGO CONDUTOR DO EMPREENDIMENTO ESTATAL? INOCENTES VÍTIMAS DA NATUREZA SELVAGEM? OU RESPONSÁVEIS POR SUA BRUTAL DEVASTAÇÃO?

SEM RESPOSTA. CRIANÇAS, APOSENTADOS, JOVENS, ESTUDANTES, TRABALHADORES, E, QUIÇÁ, ALGUMA OUTRA CATEGORIA ESTATÍSTICA É CONDUZIDA À INUNDAÇÃO!

(volta à posição no banco de ônibus)

LUCIANA: Queria você no meu lugar maninha, já teria arrancado os cabelos nesse inferno aqui!

LUIZA: Põe inferno nisso! Eu perdendo meu tempo com uma mula empacada… Ô Luciana, você acha que a única serventia do celular é ficar rolando a tela com o dedinho viciado? Dá pra me mandar a porra da localização de uma vez por todas?

LUCIANA: Não sei como eu ainda fico pasma com a sua falta de empatia Luiza, mesmo numa situação dessas você não perde a oportunidade de me humilhar…(embarga a voz) … Desde novinha já fazia isso comigo… (demonstra fragilidade) … É por esse tipo de coisa que evito falar da minha vida pra você…


LUIZA: Lú…Desculpa… (com calma) vai no aplicativo… abre a nossa conversa… envia a localização aqui pra mim… podemos fazer desse jeito?

(Silêncio)


LUCIANA: …Tá… tá bom, tá bom… (exausta) eu vou deixar no viva voz enquanto faço isso… (agita-se novamente) Mas que merda eu tô fazendo? Já chamaram os bombeiros, a defesa civil, a prefeitura, a emissora de TV, o diabo a quatro! Que saco você se acha a fodona mesmo né? Ah, vá pa merda! Tchau Luiza! (desliga o celular)

LUIZA: Lú? Luciana? Lucianaaaaaa…

LUIZA: PARTE TRÊS - MILAGRE DE NATAL

(narração)

LUCIANA: UM CAMINHÃO DESCAMINHA, bloqueia o acesso atravessado ao canteiro da avenida. Cá dentro, a água invade, chegando ao primeiro piso do coletivo.

Um senhor subiu de nível, foi para o segundo degrau, elevou-se para não molhar os pés na água não filtrada. Uma outra, ao celular (ironiza) discute com a irmã que queria fazê-la ir até a rua de cima para acudi-la de carro.

Nadaria pela água podre? Enfiaria o pé num buraco? Abriria a porta do ônibus para que mais água entrasse? Argumentaria com a bem-intencionada irmã do outro lado da linha? …Tanto faz… Tanto faz…

NO MESMO INSTANTE, LÁ FORA, O ENTREGADOR DE COMIDA RENUNCIA AO SEU GANHA-PÃO. ASSISTIU, ASSISTIMOS A MOTO CONDUZIDA PELA ENXURRADA.

Os bombeiros chegam com seus botes salva vidas, seguidos da emissora de tv.

Como um milagre de natal, em três ou quatro horas, saímos do lugar. Tempo estiado, lama escorrida… A chave do ônibus é acionada pelo condutor.

Nas filas de açougue para a compra do peru, no preparativo da ceia, ou na ressaca curada pelo almoço do dia vinte e cinco. CADA PESSOA, AO SEU MODO PARTICULAR, RELATA A UMA VERSÃO DO ALAGAMENTO.

Pela manhã, o asfalto é destroçado ao som das britadeiras, lançamentos imobiliários semeiam o ferro no concreto fazendo brotar milhares de novos empreendimentos às marginais. Contingências metropolitanas atravessam a rotina, até o próximo feriado, até a próxima chuva, até a próxima tragédia anunciada!


Fim.